Filha de brasileira, Erika Ender compôs ‘Despacito’ em quatro horas

Hit ganhou, em abril, versão remix com a participação de Justin Bieber


O português falado é perfeito. No lugar de um possível sotaque espanhol, um surpreendente “baianês”. Filha de um casal de médicos — o pai é americano, e a mãe, brasileira, de Salvador —, Erika Ender nasceu no Panamá há 42 anos e mora há 20 nos Estados Unidos, entre Los Angeles e Miami. Foi na Terra do Tio Sam que, em setembro de 2015, reuniu-se com o astro porto-riquenho Luis Fonsi. Juntos, os amigos compuseram “Despacito”, hit-chiclete que ganhou o mundo em diversos idiomas e versões.
— Foram quatro horas escrevendo e cantando ao violão. Fiz até um live no Facebook naquela ocasião, porque ficamos superemocionados. Sabe quando você sente na pele que uma coisa está muito legal? Fonsi tem sido um artista que canta muito pop e balada romântica, queria mostrar uma outra cara — relembra Erika, acrescentando que teve a preocupação de fazer versos “de bom gosto, responsáveis, sobretudo com a figura feminina”:
— O reggaeton tende a ser agressivo, colocar a mulher como objeto. Ajustei isso e convidei o pessoal, neste mundo imediatista, a curtir a calma, namorar devagarinho, suavemente.
Lançada como single em janeiro, “Despacito”, na voz de Fonsi e do rapper Daddy Yankee, ganhou, em abril, versão remix com a participação de Justin Bieber, tornando-se a primeira música em espanhol, em 20 anos, a chegar ao topo da parada das cem mais ouvidas da Billboard, nos EUA — a última vez em que isso aconteceu foi com “Macarena”, em 1996. E disparou na frente em serviços de streaming, como o Spotify e o iTunes, ficando entre as mais escutadas do planeta.
— Normalmente, quando as músicas em espanhol viram sucesso é porque têm dancinha por trás. Esta não. O pessoal curtiu a letra e o ritmo e se conectou, cada um faz a sua coreografia. O mundo inteiro está cantando em espanhol. Isso, para mim, que sou latina, é uma vitória — diz Erika, que está de olho no mercado musical brasileiro. — Vim ao Rio lançar meu disco “Tatuagem” (com “Despacito” numa versão mais romântica), que celebra meus 25 anos de carreira. Lá fora, meu trabalho é bem recebido, agora quero ser acarinhada pelo público daqui. Sinto que o Brasil vive num mundo diferente do restante da América Latina, é difícil o cruzamento.
Sobre os louros colhidos com “Despacito”, ela diz que a satisfação, por enquanto, só chegou em forma de reconhecimento.
— Os royalties ainda não entraram, estão vindo por aí... Mas acho que a gente vai ficar rico, né? — conta ela, soltando uma sonora gargalhada.

Ainda surfando na onda do sucesso, “Despacito” não para de ganhar versões em ritmos e idiomas diversos: da salsa ao samba, do alemão ao chinês. No Brasil, a música virou paródia pelas mãos da youtuber Kéfera, que compôs “Dez pras cinco”, e no canal “Sr. e Sra. Lobos” , que trocou o título original por “Jesus Cristo”. Mas não demora muito para o hit ganhar uma versão oficial em português.
— Fiz uma versão em português para Fonsi gravar com (o cantor sertanejo) Israel Novaes e o ensinei a cantar. Acho que vai ser uma homenagem linda dele ao Brasil. Quando eu também puder gravar e lançar do meu jeito, vai ser um prazer — diz a cantora e compositora, sem querer revelar a nova letra. — É uma tradução quase literal. A música tem um espírito, tento ficar em volta daquela mensagem.
Em março, uma versão chamada “Passito”, na voz de Israel, caiu na internet. Segundo sua assessoria, a letra, toda em português, foi feita por um irmão do artista que mora na Bolívia, e o cantor a gravou informalmente. Agora, um dueto do paraense com o porto-riquenho deve se concretizar nos próximos dias.

Por Messias Bezerra / O Dia

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.