Entenda o que é o NFT, que faz um meme virar fortuna de US$ 470 mil

Só 12% dos americanos sabem o que é NFT, sigla para token não fungível, em inglês. Se nos Estados Unidos -onde estão os grandes entusiastas desse criptoativo- o conhecimento é baixo, pouco pode se esperar de outros países. O NFT é uma raridade no mercado: está no centro de uma possível bolha, e poucos entendem do que se trata.

 No primeiro trimestre deste ano, o mercado que movimenta esse ativo digital cresceu 131 vezes na comparação com igual período de 2020, segundo o NonFunglible, que monitora o setor. Foram transacionados US$ 2 bilhões (R$ 10,4 bilhões), grande parte para o pagamento de obras de arte digitais milionárias.

Antes de explorar os motivos da atenção que esse ativo recebe da mídia americana, das celebridades e do mundo da arte, é preciso entender sua utilidade na internet.

O NFT funciona como um certificado de propriedade ligado a um produto digital -uma ilustração, um meme, ou uma fotografia, por exemplo. No mundo físico, equivaleria à escritura de uma casa.
É considerado um criptoativo: carrega a promessa de valer algo no futuro, o que o difere de uma criptomoeda, que tem cotação diária (como o bitcoin, por exemplo).

Sua transação acontece em uma rede descentralizada de internet chamada ethereum (da criptomoeda ether), onde as informações ficam registradas e com inviolabilidade garantida pela criptografia.
O fato de ser não fungível significa que é insubstituível. É o contrário da lógica da moeda: uma nota de R$ 5 ou cinco moedas de R$ 1 têm o mesmo valor. Já o NFT é exclusivo.

Os investidores desse mercado -uma elite financeira jovem com boa noção de tecnologia- compram peças digitais raras da internet que garantem essa espécie de selo de ostentação. Apostam que, ao adquirir um JPEG original, ganharão dinheiro depois.
Essa é uma das poucas explicações para que um investidor adquira uma cópia original de uma imagem difundida centenas de milhares de vezes nas redes sociais. Esse movimento começou a ganhar força em 2020, com uma capitalização de cerca de US$338 milhões, sobre US$ 41 milhões em 2018.

O ápice chegou neste ano. Em fevereiro, um leilão online vendeu um GIF viral de 2011: um gatinho correndo e deixando um rastro de arco-íris. O lance foi de 300 ether. Na época, o ether valia US$ 600 mil (R$ 3,1 milhões). Desde então, outros dois casos foram emblemáticos para a popularização do NFT.

Em março, a obra “Todos os Dias: Os Primeiros 5.000 Dias”, do artista americano Beeple, foi vendida na casa de leilões britânica Christie’s por cerca de R$ 387 milhões.
Em abril, a fotografia da criança de sorriso sarcástico em frente a uma casa pegando foto -um meme que roda a internet mundo afora- foi leiloada por US$ 473 mil. Quem vendeu a imagem foi a menina da foto, Zoe Roth, hoje com 21 anos.
A imagem foi registrada por seu pai, em 2005, quando a família morava próxima ao Corpo de Bombeiros de Mebane, na Carolina do Norte. Toda vez que o meme for comprado em sites especializados, a família de Zoe receberá 10% do valor.

Jack Dorsey, fundador do Twitter, vendeu seu primeiro tuíte por quase US$ 3 milhões. A cantora Grimes, esposa de Elon Musk, da Tesla, vendeu quase US$ 6 milhões com suas músicas no mercado NFT.

Com tanto dinheiro gasto em pouco tempo, especialistas começaram a alertar para a formação de uma bolha digital, que envolve tanto o mercado de arte e entretenimento como o setor de criptomoedas, altamente volátil.

“Claro que é uma bolha, mas não acho que vá estourar e acabar com o mercado. Pelo contrário, vejo como o início de uma nova onda no mercado criativo de internet”, diz Courtnay Guimarães, cientista-chefe de blockchain da Avanade e cofundador da Tropix -que mira esse mercado.

Elitista e muito específico, esse nicho passou a ser referenciado como o de colecionadores digitais. Tornou-se popular por três razões principais: a alta no mercado de criptomoedas, as mudanças de consumo na pandemia e o crescimento de fintechs baseadas em blockchain.

Investidores de moedas digitais que ganharam muito dinheiro em um curto período de tempo precisaram diversificar seus aportes. Em 8 de maio de 2020, o valor do mercado global de criptomoedas e criptoativos era de US$ 264,7 bilhões. Nesta sexta (7), ultrapassa US$ 2,36 trilhões, segundo dados da Coin Market Cap.

“O NFT é um mercado completamente experimental. Havia uma demanda reprimida por escassez com pessoas que ganharam muito dinheiro, e as obras desses artistas representam isso”, avalia Gabriel Aleixo, desenvolvedor de negócios na rede Hathor, plataforma de blockchain. A escassez, como dita a regra, aumenta o preço do produto.

A bolha.com, que estourou de 1999 a 2000, matou todos os negócios não sustentáveis. Com o entusiasmo dos serviços na internet comercial, empresas do setor, mesmo sem modelos de negócio estruturados, atraíam dinheiro fácil de investidores. Sobreviveram as grandes companhias que hoje dominam o mercado de internet, como Google, Amazon e Microsfot.

Para alguns especialistas, o NFT pode tomar o mesmo rumo, nas devidas proporções. Mesmo que perca o apelo e a iminente bolha estoure, algum modelo dessa onda pode sobreviver e garantir uma nova forma de remunerar artistas e criadores de internet. “NFT é claramente uma bolha, mas a tendência a partir desse movimento não se restringe à bolha”, diz Aleixo.

O próprio Beeple, artista que vendeu a obra na Christie’s, concorda que é alvo de uma tendência financeira muito pouco estável. Por outro lado, trabalha há 15 anos com arte digital, e o NFT foi um meio de garantir o reconhecimento da sua peça em meio a tantas reproduções.
Uma corrente defende o modelo do NFT como uma opção inovadora para remunerar artistas independentes na internet. Outra, garante que tudo é fruto de especulação.

A tecnologia, no entanto, chama a atenção de pesquisadores do campo do direito autoral. “Há discussões que tratam o NFT como uma forma de criação de valor e escassez na cultura, garantindo que artistas tenham controle sobre suas obras”, diz Mariana Valente, professora do Insper e diretora do InternetLab.

Um dos principais gargalos desse sistema é que não é possível comprovar que o criador do token é o autor da obra digital. Assim, o NFT garante exclusividade, mas nem sempre autenticidade.
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COMO COMPRAR UMA CRIPTOARTE
Embora o token NFT possa ser utilizado para a compra e venda de qualquer item digital -há quem considere um tuíte produto comercial-, a ideia foi abraçada pelo mercado de arte digital. Adquirir uma peça, no entanto, não é simples para quem não está acostumado com o mundo de criptomoedas. Além de arcar com o alto risco de desvalorização, é preciso transferir o dinheiro a uma corretora para que seja convertido em ether, criar uma carteira digital, pagar o imposto para a transação no blockchain e contar com a sorte para que criptoartista vendedor do NFT seja, de fato, o autor da obra. Os sites especializados na venda de ilustrações, GIFs e outras peças audiovisuais mais populares são OpenSea, Rarible e Nifty Gateway

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